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ANÁLISE: Balanço das vendas e da produção automóvel em Portugal e na Europa. Uma crise à escala do Euro

Desde o início de 2012 que se sabia (ou previa) que as vendas de automóveis em Portugal iriam descer bastante. Contudo, nem mesmo os cenários mais pessimistas previam uma queda tão acentuada como aquela que se registou. Com um mercado dimensionado para vendas anuais em redor das 200 mil unidades, esse valor ficou pela metade. Com as consequências que facilmente se adivinham: concessões a fechar ou a ter que redimensionar o negócio, reduzindo espaço e postos de trabalho; importadores obrigados a fazerem contas diariamente para sobreviverem, para não perderem capacidade negocial com os fabricantes ou para não verem os escritórios deslocalizados para Espanha, por exemplo. No meio de todo este cenário negativo ressaltam suspeitas e acusações concretas de vendas "fictícias", com reexportações de forma a produzir volume de vendas. E até o próprio Estado, cujo orçamento anual depende em grande parte do automóvel, foi obrigado a refazer as suas previsões de receita. Mas quem pensar que esta crise é apenas portuguesa, ou circunscrita a 3 ou 4 países europeus em dificuldades, desengane-se: o mercado europeu regrediu mais de década e meia. Nem a poderosa Alemanha escapou e praticamente todos os países da zona do Euro registaram quedas. De entre os países europeus mais fortes, só o Reino Unido cresceu face ao ano anterior.

No meio de toda esta desgraça, a boa notícia para quem quis – ou teve capacidade – para comprar carro novo, é que pode fazê-lo em condições mais vantajosas.
Com poucos consumidores interessados em investir e mais uns tantos a não conseguirem financiamento, as marcas foram obrigadas a reinventar-se para assegurar vendas e manter concessionários: campanhas especiais de desconto, séries limitadas com mais equipamento pelo mesmo preço e até, nalguns casos, vendas de viaturas “semi-novas” com zero quilómetros.
Mais interpretações ficam ao critério de cada um.
Olhando para os números de 2012 fornecidos pela ACAP - Associação Automóvel de Portugal, em Portugal, apesar de uma ligeira recuperação das principais marcas nos últimos meses do ano, apenas a Land Rover e a Subaru escaparam à crise: a primeira vendeu cerca de 200 unidades a mais face a 2011, enquanto a marca japonesa matriculou três carros no ano passado, três vezes mais do que em 2011…
No cômputo global, em 2012, o mercado automóvel português perdeu quase 38 por cento das vendas face a 2011, ano em que começou a cair de forma acentuada.


Regresso ao passado

Quando se analisam as tabelas das últimas décadas, uma das conclusões mais imediatas é que, com pouco mais de 95 mil unidades comercializadas em 2012, o mercado automóvel em Portugal regrediu mais de 25 anos.
Ou seja, ao período da contingentação das vendas de automóveis no nosso País.
Para quem não sabe o que isto significa, antes de 1988 cada marca tinha direito a importar um determinado número de viaturas para vender em Portugal. Esse valor variava favoravelmente consoante o investimento que cada construtor detinha em território nacional – fabrico de peças, linhas de montagem de viaturas, etc. – ou com a percentagem da incorporação de determinados componentes, fabricados em Portugal, nas viaturas que eram vendidas no nosso mercado.
Por causa dessa medida destinada a incentivar o investimento estrangeiro em Portugal, por cá se instalaram unidades da Toyota, Citroën, Opel, Datsun/Nissan, Mini, Mitsubishi, Ford, etc..
Políticas fiscais semelhantes a esta são actualmente aplicadas em muitas economias ditas “emergentes”, como é o caso do Brasil ou da Rússia, por exemplo.
Mas da produção automóvel em Portugal falaremos mais adiante.


Quem vendeu mais

Regressando à tabela de vendas, o construtor que mais vendeu em Portugal, em todas as classes de viaturas, foi a Renault.
A marca francesa continua a recolher a simpatia dos portugueses, graças a uma imagem de marca fortíssima e a uma rede comercial e de assistência bastante vasta e bem implantada no nosso País.
A análise às vendas das restantes marcas não difere muito das considerações tidas anteriormente. Nomeadamente no que respeita ao aumento da cota de mercado dos construtores mais prestigiados, casos da BMW e da Mercedes que reforçaram a sua presença no mercado português, apesar de uma diminuição percentual das vendas.
Contudo, existem suspeitas de que os alguns valores de vendas reflictam (re)exportações para fora de Portugal.
Nomeadamente para mercados africanos.


Números “manipulados” ou mero negócio?

Esta realidade não é nova, mas voltou a ganhar destaque com uma notícia publicada em Setembro pelo “Expresso”. Segundo fontes deste jornal, “há um considerável número de viaturas que são reexportadas, sendo pedido ao Estado o reembolso parcial do respectivo Imposto sobre Veículos (ISV).”
A notícia refere ainda “o número de matrículas novas que são devolvidas e canceladas por reexportação de veículos novos pode envolver entre 9% e 10% do número de unidades de veículos ligeiros de passageiros vendidos”, uma realidade do conhecimento da própria Associação Automóvel de Portugal (ACAP): “ainda não há números definitivos que permitam ter uma noção exacta sobre a dimensão do número de veículos novos que são reexportados”, declarou na altura Hélder Pedro, secretário-geral desta associação.
Este fenómeno ganhou contornos mais precisos quanto, a meio de Janeiro deste ano, Carsten Oder, presidente da Mercedes-Benz Portugal disse: “Queremos vender e não criar estatísticas. A Mercedes-Benz não é uma das marcas que está a matricular carros sem cliente final para fins de exportação, ou seja, não está a subverter as estatísticas de vendas de automóveis em Portugal. Por isso, as vendas da Mercedes estão ao nível da BMW e menos da Audi.”
O responsável máximo da marca alemã em Portugal assegurou ainda que a política da casa-mãe, a Daimler, proíbe os importadores de fazer vendas fora do país.
Confrontada com este o assunto, a SIVA, responsável pela marca Audi em Portugal, não se pronunciou.
Tendo em conta esta facilidade, as regras do Imposto Sobre Veículos (ISV) no Orçamento Geral do Estado para 2013 foram alteradas, de forma a impedir que as marcas de automóveis continuem a reexportar veículos para outros mercados.


A realidade europeia

Contudo, a nível europeu, os resultados não são mais animadores. Em 2012, as vendas recuaram para valores de 1995, com um total de pouco mais de 12 milhões de unidades vendidas.
Dezembro foi mesmo um mês particularmente negro para a grande maioria dos principais mercados europeus, cujas economias começam a sentir os reflexos da crise do euro.
A Alemanha, que ao longo do ano escapou às quedas generalizadas, vendeu menos 22,5% nesse mês e fechou o ano com menos 2,9 % das vendas.
De Janeiro a Dezembro de 2012, além da Alemanha, a Espanha vendeu menos 13,4%, a França menos 13,9% e a Itália caiu 19,9%. Grécia e Portugal registaram as quedas mais acentuadas da UE, enquanto a Inglaterra, país que segue fora da zona Euro, cresceu 5,3%.
Em 2012, a contracção do mercado da UE foi de 8,2%.

E 2013? Implicações para as exportações de automóveis fabricados em Portugal.

Com Portugal e a generalidade das economias europeias em contracção, as expectativas não são muito animadoras.
Apesar de alguns factos económicos aparentemente mais positivos, o receio, o pessimismo ou a incapacidade económica dos consumidores não parece indiciar um cenário melhor para este ano.
A maioria dos agentes do sector prevê que Portugal comercialize, em 2013, entre 80 a 90 mil automóveis ligeiros, número abaixo dos 95 mil vendidos em 2012.
A falta de confiança dos consumidores, mas também das instituições de crédito, fazem com que estes números representam preocupações acrescidas para algumas marcas representadas em Portugal.
Que poderão deixar de o ser, transferindo ou passando a ser representadas a partir de estruturas à escala ibérica.
Mas se a quebra ainda mais acentuada das vendas de automóveis em Portugal é uma preocupação, essa precipitação à escala europeia reflecte-se também sobre a produção automóvel em Portugal.
Em 2012, o fabrico nacional de veículos teve uma quebra de 14,9% face ao ano anterior. Das fábricas localizadas em território nacional saíram 163.561 viaturas automóveis, com o mês de Dezembro a produzir apenas 4.910 unidades, menos 57,5 % do que em idêntico período do ano anterior.
A esmagadora maioria dos modelos produzidos – 97,8 % – teve como destino o mercado externo.
Os países que receberam mais veículos “made in Portugal” foram a Alemanha e a França, 22,3 % e 15,5 %, respectivamente. A totalidade dos países europeus absorveu 77,2 % das nossas exportações, a Ásia 17,7 % (mais 6,6 % face a 2011) e a América 3,6 por cento.
Até ao final de Novembro de 2012, as exportações do sector automóvel (produção de viaturas, reboques, semi-reboques ou componentes) representou 11,2 % do valor total das exportações nacionais.

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