HISTÓRIA: Citröen Méhari. Simples e despretensioso.

Este carro nasceu num período muito especial da história europeia do século passado: Maio de 68. Tempos de contestação, do “é proibido proibir”, do poder popular, das liberdades de corpo e de espírito. O "Maio de 68" significou em França uma revolução de costumes e de mentalidades, uma contestação popular que viria a repercutir-se em muitos países europeus. Marcou o pensamento europeu e o modo de encarar a realidade, e foi nesse tempo tão conturbado de desconstrução de paradigmas que nasceu um dos carros mais simples e mais emblemáticos da indústria automóvel: o Citröen Méhari. Símbolo da simplicidade e do despretensionismo, é um carro utilitário e multifacetado que se lava com um jacto de água, graças à sua carroçaria integralmente feita em plástico ABS.

O conceito, simples, consistiu em aproveitar a plataforma do Citröen Diane6 e, sobre ela, construir um chassis tubular envolvido num novo material, resistente e leve, sobretudo extremamente modular, ainda pouco divulgado: o ABS, “Acrilonitrila Butadieno Estireno”, um género de plástico que podia tomar qualquer forma e assumir qualquer cor.
O resultado estético é o que se conhece. Formas simples e quadradas, com ondulados laterais destinados a reforçar e tornar mais rígida a estrutura plástica e, acima do nível da cintura… nada! O Méhari é totalmente descoberto e até mesmo o pára-brisas pode ser rebatido sobre o capot.
Contudo, existia uma estrutura que permitia colocar uma capota de lona, mais simples e destinada a proteger os passageiros do sol ou que envolvia toda a área do habitáculo. Com o passar dos anos foram igualmente surgindo estruturas mais rígidas que cobriam total ou parcialmente a área do habitáculo e até outras que adaptavam a zona traseira a fins comerciais.
As pequenas portas com dobradiças peculiares e o capot preso através de esticadores de borracha eram outros pormenores característicos e demonstradores da simplicidade e da ingenuidade do conceito.

Concorrência já havia...

Na altura, este género de veículos não era inédito; já existia o Mini Moke, surgido em 1964, ou até mesmo os célebres “beach buggy”, construídos a partir da plataforma do VW Beetle original.
Aliás, daqui provém a designação “buggy”, a partir do inglês “bug”, “petit name” pelo qual era também conhecido o célebre VW “carocha”.
A realidade é que o sucesso e projecção do Méhari deveu bastante a esse período tão particular da história de França e da Europa, inspirador de rebelião, liberdade, fantasia e imprudência, valores que o pequeno e libertino Citröen encarnava na perfeição.
Mas deveu também à sua leveza (pouco mais de meia tonelada), capaz de lhe permitir bom desempenho sobre a areia, tornando a sua silhueta popular nas praias do Sul da Europa e em muitos mercados africanos. 
Tanto assim é que uma versão 4x4, surgida em 1979, surpreende de tal modo pelas suas qualidades de todo-o-terreno que foi utilizada como viatura de assistência médica durante o Rali Paris-Dakar em 1980!

Versátil no trabalho e no lazer

Apresentado a 16 de Maio de 1968, o Méhari, depois renomeado Diane 6 Méhari, tanto podia carregar feno como transportar pranchas de surf.
O nome – Méhari – foi buscá-lo a um dromedário do Norte de África e do Sahara, conhecido pela sua resistência e versatilidade. Grande corredor, ágil mas forte, estes animais tanto são utilizados para transportar passageiros como mercadorias.
Foi por isso que, para demonstrar as suas múltiplas utilizações, a apresentação do Citröen Méhari utilizou 20 manequins vestidos com roupas de camponesas, bombeiros, aventureiros ou nadadores, em combinação com as cores das carroçarias.

Todo-o-terreno com ou sem 4x4

Redefinindo a filosofia do 2 CV original, quer através da sua modularidade como da sua economia, mas empregando materiais mais modernos, o Méhari fascina.
Ao longo da sua vida que se estendeu até 1987 partilhou o motor de 602 cc com o Diane e com o Citröen Ami.
As maiores alterações mecânicas ao longo da sua carreira terão sido a versão integral, que se distingue, entre outros pormenores, pela colocação de um pneu suplente sobre uma redesenhada tampa do motor. É também o único a possuir suspensão independente e travões de disco. Originalmente montava ainda novos pára-choques tubulares para maior protecção da carroçaria.

Um cidadão do mundo com carreira cinematográfica

Devido às suas características de versatilidade e facilidade de manutenção foram muito utilizadas por forças militares, policiais e paramilitares, como Bombeiros, um pouco por todo o Mundo.
Cerca de 150 000 exemplares foram produzidos entre 1968 e 1987, tendo sido vendido ou construído em diversos mercados, incluindo o americano. Nos Estados Unidos foi classificado como viatura de trabalho, uma vez que as normas de segurança mais rígidas impediam que fosse considerado automóvel, devido à ausência de cintos de segurança. Os modelos produzidos na Argentina utilizavam carroçarias em fibra de vidro, em vez de ABS, e chegou a possuir uma capota rígida.
Em Portugal foi um sucesso. Aliás, em 19 anos de história, o Méhari apenas conheceu duas séries especiais, lançadas em 1983, uma das quais destinada exactamente ao mercado português. O Méhari Azur, também vendido em França e em Itália, possuía a carroçaria em branco e azul, este último usado nas portas, grelha, cobertura do tejadilho e anéis dos faróis. Interiormente os estofos eram em tecido listrado nas mesmas duas cores.
A outra versão foi o Méhari Plage vendida em Espanha. Diversos modelos inspirados na mesma filosofia foram também montados pelo construtor francês: Baby-Brousse, Pony, Dalat ou os mais conhecidos e estranhos FAF, presentes na imagem à esquerda.
A carreira do Méhari estendeu-se também ao cinema, sendo estrela no filme “O gendarme de Saint-Tropez”, a popular série de filmes que contava com o comediante Louis de Funès.

Sem comentários:

Enviar um comentário